Quem fala aqui é teu Deus
Aquele que te fez “simples e ignorante”
Mas, lá nos primórdios dos tempos, que te concebeu
A vida, pra desfrutá-la como “pássaro itinerante”.
Por tudo isso que criei e acredito
Tua presença no mundo se justifica
Portanto, abandone tuas crenças, teus mitos
Entre outros tantos adornos que nada significam.
Vagas pela vida alheio à minha existência
E, entre as sombras dos instintos não me alcanças
Tua “cegueira” te demove de ver-Me em essência
Na flor que desabrocha, nas fontes cristalinas, no sorriso da criança.
Imaginas detentor de toda verdade
De todo conhecimento, de toda ciência, filosofia
Mas, que te serve somente para alimentar tua tola vaidade
Enriquecer-te de ouro e do poder a que te filias.
Construístes templos onde acreditas minha morada
Num requinte de brilho, luxo, ostentação
Equivocado que esta tua fé materializada
Junto à este teu Deus, possa ter a mesma utilidade e dimensão.
Revesti teu dia com as dádivas da saúde, do trabalho e da vida
E, ainda assim, lamentas tua miserável sorte
Fizeram-te crer que, junto à Mim, toda dívida contraída
Mereceria, irremediavelmente, o salário da morte.
Tenho falado constantemente contigo
Não por teorizações criadas pelo pensamento humano
Mas, pela linguagem da natureza em que te abrigo
Junto aos cantos dos pássaros, da chuva miúda, dos ventos, dos oceanos.
E, por tantos outros encantos, sutilezas e nuances
Que reverberam nos mais recônditos espaços
Tudo à teu dispor, à teu deleite, à teu alcance
Mas, que aguarda a iniciativa de teu primeiro passo.
Quando temes meu juízo, minha crítica, punição
Espelhas tua instintiva vingança, soando como advertência
Do fracasso de nossa simbiótica relação
Em que o efeito só poderia ser a dor na tua consciência.
Pare de medir minha justiça pela tua visão limitada
Pedir perdão por teus adultérios, teus escândalos, tuas trapaças
Disso não me ocupo, não é de minha conta, é tua natureza manifestada.
E, é assim que a vida se mostra em toda sua graça.
No fim da jornada não terás castigo nem premiação
Se virtude é dever, pecado só pode ser necessidade
Pra corrigenda dos rumos de tua pretensa salvação
Ou consolidar aquilo que defendes como verdade.
Céu e Inferno são escolhas nesta tua permanência
São portas que te dão acesso irrestrito
Às tuas paixões, buscas, ilusões, sentimentos e carências
Mas, sem cobranças, sem culpas ou qualquer outro atrito.
Portanto, vivas como se não houvesse o próximo “segundo”
Pode ser que este seja, da vida, o derradeiro
Que teu estado de alerta seja teu guia no mundo
E, tua relação com a existência, O Amor Verdadeiro.
E, quando as intempéries, as tempestades, as inundações
Surgirem trazendo-te lágrimas, retirando teu riso
Estarei dentro de ti, longe do fogo das paixões
Mediando teu Inferno e teu Paraíso.
Enfim, tua razão apontando-me como a causa de tudo
A gente possa se encontrar antes do próximo “escurecer”
Quem sabe até entender minha essência, finalidade e conteúdo
Afinal, sou teu Deus, imortal, infinito e tenho muito mais o que fazer.